Originalmente descrito em 1974 pelo psicanalista alemão-americano Herbert Freudenberger, o termo burnout deriva de burn out, que significa “queimar completamente” ou “esgotar”. Mais do que um simples cansaço, o burnout é um estado extremo de exaustão física, mental e emocional, associado principalmente ao ambiente de trabalho.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o burnout como um fenômeno ocupacional. Ele é definido como “uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi administrado com sucesso”. Essa definição marca um importante reconhecimento da natureza sistêmica e organizacional do problema, ampliando sua compreensão além de questões individuais.

Sintomas: O Complexo Manifesto do Esgotamento

Os sintomas do burnout abrangem múltiplos aspectos da saúde humana, desde alterações físicas e cognitivas até impactos emocionais e comportamentais. Segundo o Ministério da Saúde, os principais sinais incluem:

  • Físicos: cansaço extremo, dores musculares, dores de cabeça frequentes, alterações no apetite, insônia, pressão alta e problemas gastrointestinais.
  • Cognitivos: dificuldade de concentração, redução da capacidade de tomada de decisões e pensamentos negativos persistentes.
  • Emocionais: sentimentos de fracasso, insegurança, desesperança, negatividade constante e isolamento social.
  • Comportamentais: alterações bruscas de humor, interação limitada com colegas, diminuição do engajamento no trabalho e afastamento de atividades sociais e familiares.

A combinação desses fatores pode ser devastadora, levando o indivíduo a um estado de esgotamento que compromete a saúde, a produtividade e o bem-estar geral. Muitas pessoas, por receio de represálias ou julgamento, evitam buscar ajuda, agravando o quadro e perpetuando o impacto negativo no ambiente de trabalho que em muito casos resulta no desligamento deste funcionário.

Impacto do Burnout: Uma Realidade Quantificada

O burnout é um problema de larga escala, com impactos profundos no bem-estar das pessoas e nos resultados organizacionais. De acordo com uma pesquisa da Gallup realizada com 7.500 trabalhadores:

  • 76% dos funcionários relataram sentir sintomas de burnout no trabalho em algum momento;
  • 28% afirmaram que esses sintomas são recorrentes (“frequentes” ou “sempre”).

As consequências vão além do sofrimento individual:

  • Funcionários com burnout têm 63% mais probabilidade de se ausentar por motivos de saúde;
  • Eles apresentam 23% mais probabilidade de buscar atendimento emergencial em pronto-socorros.

Adicionalmente, o relatório Global Talent Trends 2024 da Mercer revelou que 80% dos funcionários em todo o mundo enfrentam riscos significativos de esgotamento. Essa realidade não só afeta os trabalhadores, mas também compromete a sustentabilidade das organizações, contribuindo para um aumento no turnover e para uma redução no engajamento e na produtividade.

Dados do Ministério da Previdência Social (2023) reforçam a gravidade da situação no Brasil: 27 trabalhadores por dia foram afastados por transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho, incluindo o burnout. No ano de 2024 o ministério divulgou um aumento de 68% em relação a 2023, no número de afastamento por transtornos mentais totalizando, 472.328 mil pessoas.

Causas do Esgotamento: A Conexão Entre Gestão e Saúde

Embora as causas do burnout sejam multifatoriais, há consenso sobre os principais gatilhos no ambiente de trabalho. A pesquisa da Gallup identificou cinco fatores recorrentes:

  1. Tratamento injusto no ambiente de trabalho;
  2. Carga de trabalho excessiva e incontrolável;
  3. Comunicação inadequada ou insuficiente por parte da liderança;
  4. Ausência de suporte gerencial consistente;
  5. Pressão de tempo irrealista ou irracional.

Esses fatores estão frequentemente ligados a práticas organizacionais deficientes, culturas corporativas tóxicas e lideranças despreparadas, o que reforça o caráter sistêmico do burnout. Adicionalmente, a psicóloga alemã Stefanie Stahl, autora do livro Acolhendo Sua Criança Interior, sugere que o burnout é intensificado pela falta de reconhecimento e pela ausência de resultados tangíveis e significativos. Quando os trabalhadores não percebem o impacto do seu esforço ou sentem que suas contribuições são negligenciadas, a desmotivação e o esgotamento tornam-se inevitáveis.

Burnout e as Disparidades no Ambiente de Trabalho

Segundo Nikolaos Dimitriadis e Alexandros Psychogios, o burnout frequentemente surge de disparidades significativas entre as demandas do trabalho e os recursos ou condições disponíveis para atendê-las. Essas discrepâncias aparecem de diversas formas:

  • Excesso de Trabalho Prolongado: Longas horas de trabalho por um período prolongado.
  • Complexidade Crescente: Problemas que se tornam mais difíceis sem suporte adequado aumentam o estresse.
  • Desalinhamento entre Cargo e Preparo: Quando o colaborador não se sente apto para atender às exigências do cargo, o sentimento de inadequação gera esgotamento.
  • Conflito de Valores: Incompatibilidades entre a cultura da empresa e os valores pessoais do indivíduo criam tensão interna.
  • Escassez de Recursos e Tempo: A pressão para realizar mais com menos leva à sobrecarga.
  • Falta de Reconhecimento: A ausência de validação ou feedback positivo desmotiva e aumenta o desgaste.
  • Isolamento Relacional: A falta de apoio e interação no ambiente de trabalho amplifica o sentimento de desconexão e vulnerabilidade.

Essas disparidades afetam diretamente o bem-estar dos colaboradores, tornando essencial que as organizações promovam alinhamento entre as expectativas e as condições de trabalho, garantindo suporte, reconhecimento e recursos suficientes.

O Papel do Líder na Prevenção e Gestão do Burnout

Líderes e gestores têm um papel essencial na construção de ambientes de trabalho saudáveis e na prevenção do burnout. A liderança consciente é capaz de identificar sinais precoces de esgotamento, acolher os colaboradores em dificuldade e implementar práticas que promovam o bem-estar no trabalho.

Cuidados e Rotinas Essenciais na Gestão de Pessoas

  1. Reconhecer Sinais de Burnout
    • Esteja atento a mudanças comportamentais, como retraimento, irritabilidade, redução na produtividade ou afastamento social.
    • Observe indicadores de saúde, como faltas frequentes, reclamação excessiva, queixas de cansaço extremo ou dificuldade em cumprir prazos.
  2. Feedback Positivo e Reconhecimento
    • Promover um senso de valorização e pertencimento.
    • Reconheça contribuições de forma genuína, elogiando conquistas e orientando melhorias com cuidado. Evite críticas públicas ou desproporcionais.
  3. Promover o Equilíbrio e a Saúde Mental
    • Evite sobrecargas de trabalho e distribua responsabilidades de forma adequada a capacidade técnica, comportamental e de tempo de cada pessoa.
    • Ofereça flexibilidade quando possível, permitindo ajustes na rotina de trabalho para lidar com períodos de maior pressão.
    • Incentive pausas regulares e períodos de descanso, incluindo férias respeitadas.
  4. Crie o Check-ins Regulares com os Funcionários
    • Identificar dificuldades antes que se transformem em crises.
    • Agende reuniões individuais com frequência mensal ou quinzenal para ouvir sobre desafios enfrentados, tanto no trabalho quanto na vida pessoal, se o colaborador desejar compartilhar.
  5. Facilitação do Acesso a Recursos de Apoio
    • Oferecer suporte adequado para questões de saúde mental.
    • Conecte os colaboradores a programas de assistência psicológica ou parcerias com profissionais de saúde mental. Garanta que esses serviços sejam acessíveis e divulgados.

Postura e Atitudes do Líder

  1. Empatia Ativa
    • Ouça ativamente os relatos de sua equipe e evite respostas automatizadas ou julgamentos. Perguntas como “Como posso lhe ajudar?” “Existe algo que posso facilitar as suas entregas?” demonstram apoio e cuidado.
  2. Consistência entre Discurso e Ação
    • Seja exemplo no equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mostrando que pausas e autocuidado são prioridades legítimas.
  3. Formação Contínua
    • Busque capacitação em inteligência emocional, gestão de conflitos e comunicação não violenta para aprimorar o relacionamento com sua equipe.

Um Problema Sistêmico, Não Individual

O burnout deve ser abordado como um problema estrutural, não apenas como uma fragilidade individual. Soluções efetivas passam por mudanças culturais, melhorias nos processos de trabalho e no suporte oferecido aos funcionários. Ações como promover equilíbrio na carga de trabalho, melhorar a comunicação entre líderes e equipes, estabelecer reconhecimento genuíno e criar ambientes psicológicos seguros são essenciais para prevenir o esgotamento e seus desdobramentos.

Autor: Daniel Fünkler Borelli

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